Claudia Schüffner e Janes Rocha
A Companhia de Água e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (Cedae) planeja começar a colocar as contas em ordem. A companhia deve publicar o balanço de 2008 na primeira quinzena de fevereiro, disse o presidente da empresa, Wagner Victer. Mas ele já adianta que o de 2009 vai atrasar e que os planos para oferta de ações ficaram para o próximo governo.
O atraso na divulgação dos balanços levou a Cedae a ter cancelado seu registro de companhia aberta pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em dezembro. Victer prometeu que os novos demonstrativos financeiros, ainda em elaboração, vão compensar a "dívida" da empresa com o mercado, trazendo mais "transparência".
Os números estarão já ajustados ao IFRS, o padrão contábil internacional, e auditados pela PricewaterhouseCoopers (PwC), empresa que substituiu a BDO Trevisan no trabalho realizado com os balanços anteriores.
Os problemas da Cedae com balanços não são novidade. Na mudança do governo do Estado, em janeiro de 2007, o balanço de 2006 foi entregue com dois meses de atraso e com uma declaração de abstenção da auditoria BDO. Ao justificar a abstenção, a BDO fez várias ressalvas, entre elas a "não conclusão sobre a adequação do saldo de contas a receber de usuários e sua realização e ausência de relatórios de acompanhamentos dos processos judiciais, impossibilitando a conclusão sobre o saldo registrado na rubrica de depósitos e bloqueios judiciais, as quais foram regularizadas em 2008".
Segundo um experiente advogado, que acompanhou o caso da Cedae e que pediu para não ser citado, a abstenção da auditoria é um fato raro na história das companhias abertas brasileiras.
A solução encontrada foi atender as recomendações dos auditores e atrasar a entrega. Um novo balanço, com os números mais apurados e certificados pela BDO, foi enfim assinado pela nova diretoria da Cedae depois de uma assembleia onde o controlador da companhia, o Governo do Estado do Rio de Janeiro, aprovou o novo balanço de abertura assinado pela nova gestão em janeiro de 2008. Já os números de 2007 vieram com uma revisão que permitiu eliminar as ressalvas feitas anteriormente pela BDO.
No último balanço publicado, referente ao primeiro trimestre de 2008, a Cedae apresentava receita operacional líquida de R$ 735,5 milhões, correspondentes à arrecadação com os serviços de água e esgoto. O passivo total era de R$ 13,5 bilhões. O resultado foi lucro de R$ 107,8 milhões. No balanço de 31 de dezembro de 2007, a Cedae teve receitas líquidas de R$ 2,5 bilhões, passivos de R$ 13,25 bilhões e resultado líquido pouco superior ao trimestral seguinte, de R$ 149 milhões. A empresa arrecadou em 2009 aproximadamente R$ 2,5 bilhões com a prestação de serviços de água e esgoto, comparado a R$ 2,3 bilhões em 2008.
Wagner Victer diz que os novos resultados da Cedae, além de seguirem as normas internacionais de contabilidade, vão se aproximar dos padrões usados por outras empresas de saneamento, o que vai facilitar a comparação com as congêneres Sabesp (SP) e Copasa (MG), que já são companhias abertas com ações em bolsa, enquanto a Cedae tem 99% do seu capital nas mãos do governo do Rio.
"Estamos trabalhando na melhoria da governança e da transparência dos números, que no passado nos davam muito desconforto. O processo de abertura de capital pressupõe a confiança do futuro investidor na veracidade dos números da empresa. Então é melhor atrasar agora do que depois. No final, isso vai aumentar o valor da companhia", acredita.
Hoje a Cedae é uma empresa em "reconstrução", tanto administrativa quanto financeira. Parece esquisito, mas foram encontrados prédios da Cedae em Niterói e Campos, municípios nos quais a empresa não opera. Além disso, um funcionário tinha registrado o domínio cedae.com.br em seu nome. A questão foi negociada e o domínio devolvido sem custo para a empresa.
No dia 26, tomam posse 25 advogados - que vão se somar aos únicos quatro que atualmente fazem parte do quadro funcional - e 20 contadores. Os novos advogados vão atuar nas áreas de direito societário, planejamento tributário, direito ambiental e do consumidor. "São áreas onde a empresa se fragilizou", diz o presidente.
Entre as mudanças está um novo servidor de grande porte ("mainframe") para o Centro de Processamento de Dados (CPD). O anterior tinha 22 anos. Todas as compras são feitas por meio de pregão eletrônico, o que possibilitou redução de custos causada, em grande parte, pelo fim dos atrasos nos pagamentos.
A empresa está em dia com a Light. Ela foi a maior devedora da distribuidora, ao lado da Supervia, que administra os trens do Rio. A Cedae paga R$ 200 milhões por ano pela energia consumida e por dívidas passadas, graças a um acordo firmado em janeiro de 2008 que inclui uma parceria para reduzir gastos com energia. O próprio Victer lembra que antes não havia essa preocupação porque a Cedae não pagava suas contas.
"A retomada da credibilidade com os pagamentos em dia e números confiáveis fez com a empresa pudesse negociar preços e muitos fornecedores voltaram", diz.
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